KICKS QUE A INTERNET NÃO TEVE A CORAGEM DE ELOGIAR
Sempre recebo perguntas: “Por que você não fala igual às outras pessoas? Não introduz o vídeo passando a ficha técnica, fazendo o que todo mundo faz?”
Deixo a resposta neste texto e espero que ela faça você pensar.
O novo Kicks chega para brigar com mais força, com mais personalidade e com mais ambição do que muita gente está disposta a reconhecer. Mas as análises de hoje se prendem à ficha técnica como se ela fosse a única verdade possível, é claro o motivo. Se o carro, pelo preço X, não oferece a cavalaria Y, a lógica rasa de comparar como uma planilha dita que ele “não vale”. Simples assim. Fico extremamente irritado com isso, porque esse pensamento foi profundamente impregnado na cabeça das pessoas, ao ponto de transformar a experiência real em erro, em irrelevância, como se quem dirige e sente o carro estivesse errado diante de uma tabela fria de números.
O novo Kicks sofre do rótulo cruel de “manco” e esse rótulo me incomoda muito, porque ele ignora uma realidade óbvia: a grande maioria dos consumidores não usa sequer metade da capacidade do motor do carro. No trânsito do dia a dia, nas estradas do fim de semana, na rotina de quem realmente compra e vive com o carro, esse argumento desmorona sozinho. E ainda assim, pela falta de habilidade e noção, recorre-se àquela velha e cansativa muleta de desculpa, repetida como mantra por quem nunca foi além da ficha técnica.
Entendo, e deixo claro que as versões Exclusive e Platinum do Kicks mereciam o motor 1.3 Turbo. Isso é inegociável, é um pecado da Nissan, e precisa ser dito. Ponto final. Mas será que podemos, por um momento, mudar o foco? Será que conseguimos enxergar além disso? Porque hoje a visão está completamente travada nesse único ponto, e quem critica não observa os demais aspectos do carro, não percebe a evolução, não enxerga o todo, alimentando aquele bom e velho viés de confirmação preguiçoso, que só busca o que já acredita e ignora tudo o mais.
Desde o meu teste com o Kicks Exclusive e agora com a versão de entrada Sense, confirmo e afirmo com total convicção: que baita carro a Nissan tem nas mãos. A construção é visivelmente mais sólida, mais esmerada, mais cuidadosa em cada detalhe e muito mais tecnológica do que víamos no antigo Kicks, agora apelidado carinhosamente de “Kait”, anteriormente chamado de Kicks Play. Poderia ter recebido um nome completamente novo? Talvez, e até faria sentido para marcar a diferença geracional. Mas do ponto de vista mercadológico, a continuidade da marca é uma decisão inteligente, e ninguém deveria se surpreender com isso.
Dedico este texto a uma reflexão genuína, porque ela é necessária: a internet está ficando superficial demais, e isso está nos custando muito. Quem avalia carros está ficando preguiçoso, acomodado, repetitivo. Neste mundo cada vez mais polarizado e acelerado, as pessoas estão deixando de aprender, de conhecer, de se aprofundar para julgar em todo canto, com toda a certeza do mundo, sem o mínimo de conhecimento real, sem prática, sem vivência, sem observar o público-alvo, sem entender os objetivos da marca, sem considerar o contexto de quem vai comprar aquele carro.
Digo e repito, sem nenhuma hesitação: o Kicks é um carro fantástico, e merecia muito mais atenção, muito mais respeito e muito mais valorização do que tem recebido. Não porque este carro chegou até mim como empréstimo da Nissan, isso não muda absolutamente nada na minha análise. Mas porque, usando minha experiência acumulada com todos os carros da categoria, ele tem mérito real, mérito concreto, mérito que se sente no volante, no assento, nas curvas, no dia a dia. Só será verdadeiramente valorizado quando as pessoas pararem de ser tão rasas, de seguir manadas cegamente, de repetir o que o vizinho disse sem nunca ter tocado no carro.
Tem seus pecados, como qualquer carro, volto ao ponto que não posso abandonar: o motor 1.3 Turbo é fundamental para o Kicks, e sua ausência nas versões de topo é uma falha que precisa ser corrigida. Mas isso, por si só, não torna um carro pior, não torna um carro incomprável, não apaga tudo o que ele oferece de extraordinário. Nessa mania doentia de comparar carro por ficha técnica, de reduzir tudo a números frios e tabelas sem alma, fica cada vez mais fácil pedir para a inteligência artificial fazer o vídeo por você: tudo repetitivo, tudo previsível, tudo frio, sem conexão, sem paixão, sem o calor de quem realmente ama carros.
E é exatamente essa paixão que me faz continuar aqui.


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